Leia um relato bem humorado de um pai, comentando sobre o que aconteceu em sua vida após a chegada de seu bebê.
Mamãe vai às compras. O papai vai à falência.
Sempre imaginei que o mercado de badulaques para bebês e crianças fosse imenso. Uma coisa é imaginar, outra coisa é ver sua esposa o dia inteiro na internet comprando dezenas de traquitanas coloridas e pagando tudo com seu cartão de crédito. De-ses- pe-ra- dor. Olhando o baú do meu bebê, carregado de bonecas que tocam musiquinha, chocalhos que apitam, mamadeiras que acendem e mordedores de milformatos, eu ficava imaginando: A construção sólida, imponente, misturava o grandioso ao sinistro.
• Onde minha senhora socaria os trinta objetos que comprava por dia na Amazon;
• Por que, afinal, o bebê precisava de 267 brinquedinhos, se ele ainda nem sabe para que servem as mãos?!;
• O mais irônico vem agora: se o bebê passa a maior parte do tempo fazendo cocô e xixi, comendo e dormindo, a que horas ele ia brincar com todo aquele carregamento que chegaria de Miami?
Minha teoria é que minha senhora, que era consumista de nascença e por mais de dez meses parou de comprar coisas para si, pensando apenas no bebê, agora canalizava sua compulsão direto para a seção infantil da Amazon. No intervalo entre as mamadas, vejo-a na frente do notebook e percebo seu ar de triunfo cada vez que clica no enter, finalizando uma compra. São notórios o deslumbramento e o sorriso de psicopata, que vi pela primeira vez quando ela entrou no free shop de Nova York.
Depois de meia hora no computador, a tarde de compras on-line já virou uma viagem sem volta.
Instintivamente, pego minha humilde calculadora comprada na 25 de Março e passo a fazer contas enlouquecidas, cruzando as datas de vencimentos dos cartões de crédito com as somas que minha mulher vai torrando. Enquanto isso, meu bebê observa, talvez imaginando que a mãe, com o computador no colo, esteja trabalhando, fazendo relatórios, mandando e-mails, mas nunca comprando. Seduzida pelas novidades que vão explodindo na tela a cada clique, minha senhora fica surda e perde a noção do perigo. Mas é quando as caixas começam a chegar em casa que ela fica completamente irreconhecível. Outro dia, enquanto abria o último lote que nos entregaram, ficou tão eufórica que perdeu o bebê. Procuramos por meia hora, até ouvir seu choro vindo de uma das embalagens vazias. E o que havia nas caixas antes de pormos o bebê ali? Coisas que nem os marcianos viram. Um microaspirador eletrônico para tirar resíduos do nariz. Um processador que transforma leite de vaca em leite materno.
Acessórios para carrinho, saquinhos para congelar leite materno, maquinetas de tirar leite, kit de rodas de carrinho de bebê, uma babá eletrônica em formato de iPhone, uma almofada de gel que simula as condições do útero, bolsas de água quente para micro-ondas, livros que tocam musiquinha, móbiles que tocam musiquinha.
A lista é bem maior que a de presentes do nosso casamento. O pior é que o único brinquedo com que o bebê se empolgou até agora foi a embalagem de uma amostra grátis de xampu.
[...]
Agora que nossa casa se tornou um showroom de produtos da Chicco, sobrou um total de trinta metros quadrados para nos locomover. Logo os brinquedos invadirão a cozinha e a área de serviço, os dois únicos refúgios quando a sensação de claustrofobia se torna insuportável. Nesse dia eu sairei de casa e deixarei o bebê sozinho no apartamento, com seu mundo de traquitanas para criança.
FUNES, Daniel. Confissões de um pai despreparado. São Paulo: Panda Books, 2013. p. 54-56.
a) ( ) O choro alto do bebê e sua falta de sono.
b) ( ) Os brinquedos novos que o bebê pediu.
c) ( ) A compra desenfreada de brinquedos.
d) ( ) A importância de comprar mais brinquedos.
e) ( ) A desatenção da esposa, viciada em computador.
2. O pai afirma que é “De-ses-pe-ra-dor” ver a esposa fazendo compras. Por que a palavra “desesperador” foi grafada com hífens? Qual o efeito de sentido que essa forma de escrever gera no texto?
3. Segundo o autor, sua esposa é “consumista de nascença”. Considerando a questão do consumismo, qual das opões abaixo não poderia ser tema de um artigo de opinião?
a) ( ) Problemas ambientais e consumismo.
b) ( ) Deve-se criar uma lei punindo os consumistas?
c) ( ) Os males do consumismo desenfreado.
d) ( ) O que é mais saudável: consumir ou brincar?
e) ( ) O consumismo é uma doença?
4. Argumentar é sustentar uma opinião com argumentos. Preencha o quadro abaixo, colocando, de um lado, sua opinião sobre o consumismo e, de outro, argumentos que possam sustentá-la.
