Mitologia indígena - Atividade de interpretação e produção de texto - A importância da natureza para a identidade cultural dos povos indígenas
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Você vai ler um mito dos Kayapó, povo indígena que vive nos estados do Pará e Mato Grosso. Recontado pelo escritor indígena Daniel Munduruku, esse mito enfatiza poeticamente a importância da natureza para a identidade cultural desse povo, pois, como você verá, fauna e flora, mais do que elementos de um belo cenário, são fundamentais para explicar as origens dos Kayapó.
O autor
Daniel Munduruku
Nascido em Belém, Daniel traz em seu sobrenome a etnia indígena a que pertence, os Munduruku, que vivem entre os estados do Mato Grosso, Pará e Amazonas. Autor de mais de 50 livros para jovens e crianças, recebeu diversos prêmios, entre eles o Jabuti, na categoria Juvenil, e o da Academia Brasileira de Letras, com o livro Vozes ancestrais.
Hipóteses sobre o texto
Em se tratando de um mito indígena, que elementos mágicos se espera que estejam presentes?
Leia o título do mito. O que você espera encontrar nessa narrativa?
O buraco no céu de onde saíram os Kayapó
Contam que, num tempo muito antigo, os Kayapó moravam no céu. Lá, muito acima do teto do céu, havia tudo o que se pode imaginar. Tinha batata-doce, macaxeira, inhame, mandioca, milho, inajá, banana, caça das mais diversas e tartarugas da terra. Enfim, era um lugar com muita fartura.
Um dia, um experiente guerreiro da classe dos Mebenget descobriu no mato a cova de um tatu. Ele ficou muito curioso e com vontade de caçar o animal. Então começou a cavar. Passou o dia inteiro caçando e mesmo de noite não parou de cavar. Assim se passaram muitos dias até que viu o tatu-gigante. Ficou animado com isso e cavou com mais empenho ainda até furar a abóbada celeste. O tatu despencou lá de cima, arrastando consigo o velho guerreiro. No entanto, quando já estavam para chegar no chão, um forte vento de tempestade pegou o guerreiro e o atirou novamente para cima. Assim, ele pôde voltar para o céu, de onde olhou a terra e viu que lá tinha uma pequena floresta de buriti, um rio e vastos campos.
Admirando a terra lá embaixo, o homem sentiu uma saudade tão grande, um aperto tão profundo no coração, que não se conteve e deixou rolar duas lágrimas pelo rosto. Depois, apressou-se em voltar para sua aldeia a fim de contar o que havia visto.
— Cavei um buraco na abóboda celeste — contou o guerreiro.
— E como isso aconteceu? — perguntaram os homens reunidos na casa especialmente preparada para suas reuniões.
— Eu vi um tatu-gigante e o persegui até ele desabar do céu.
— E onde ele está agora?
— Ele caiu sobre uma floresta de buritis.
Os chefes dos Kayapó ficaram muito pensativos após ouvirem o relato do guerreiro e conversaram para decidir o que fazer.
— O que devemos fazer agora? — perguntou um chefe.
— Será que devemos deixar o céu e descer para a Terra?
No entanto, não conseguiam decidir nada e permaneceram longo tempo conversando e pensando sobre o que iam fazer, até que decidiram que o povo deveria emigrar para a Terra.
— Como iremos fazer isso, já que é uma descida muito grande? — indagou outro chefe.
— Vamos fazer uma corda muito comprida usando nossos cipós, braceletes e cintos. Cada um de nós terá de ir em sua casa e trazer tudo o que puder ser tecido para fazermos uma corda bem forte e resistente.
E assim foi feito. Os homens teceram uma longa corda que foi lançada daquele buraco do céu. Imediatamente começaram a descer. A corda, no entanto, não era longa o bastante para atingir o chão e todos tiveram de retornar ao céu. Mas não desistiram. Foram trazendo mais coisas para aumentar a corda até o comprimento necessário.
O primeiro a descer foi um homem da classe dos Mebenget que não tinha medo de altura. Ele foi o primeiro Kayapó a pisar a Terra. Logo que chegou, amarrou a extremidade da corda no tronco de uma árvore gigante, o que facilitou muito a descida das outras pessoas. Os primeiros a descer foram os jovens; depois, as mulheres com as crianças agarradas em suas costas; em seguida, os homens e, finalmente, os anciãos.
Aconteceu, porém, que alguns Kayapó ficaram com medo de descer pela corda e resolveram não acompanhar os outros. Nessa expectativa, nesse desce-não-desce, apareceu um estranho menino que, vendo a corda esticada, passou por ela e a cortou. Fez isso zombando de todos e disse:
— Estou cortando a corda para que eles fiquem morando no céu eternamente.
Diante disso, os que já tinham descido procuraram rapidamente um lugar nos campos onde pudessem construir sua morada. Os mais jovens iam na frente para abrir caminho enquanto eram seguidos pelos demais.
É por esse motivo, contam os antigos Kayapó, que uma parte desse povo continua morando no céu enquanto os demais se fixaram na Terra e a dominaram, tornando-se grandes conhecedores da floresta.
MUNDURUKU, Daniel. Outras tantas histórias indígenas de origem das coisas e do Universo. São Paulo: Global, 2008. p. 31-36.
abóbada: teto curvilíneo.
inajá: palmeira nativa da Amazônia cujos frutos têm polpa comestível.
Mebenget: classe dos Kayapó composta de anciãos.
1. Retome suas hipóteses sobre o texto. Elas se confirmaram ou não?
a. Que elementos mágicos da narrativa você atribui exclusivamente à mitologia indígena?
b. Com base nas pistas do título, alguma parte do texto foi imaginada por você antes da leitura? Qual?
c. Que fenômeno o mito busca explicar?
2. Sobre o início da narrativa, responda:
a. Quem é o protagonista?
b. Onde vive essa personagem?
c. Transcreva uma passagem que caracteriza esse lugar.
d. Com base nessa descrição, o que se pode deduzir sobre a relação dos primeiros Kayapó com esse ambiente?
3. A personagem principal faz uma descoberta que motiva o restante da narrativa.
a. Que descoberta essa personagem fez?
b. Que atitude essa descoberta motivou a personagem a tomar?
c. Qual foi a consequência dessa atitude?
d. Como os Kayapó reagiram a esse acontecimento?
4. Escreva o que você descobriu dos seguintes elementos presentes nesse mito:
a. Lugar
b. Tempo
c. Personagens
d. Conflito
e. Desfecho
5. Os Kayapó descem à Terra após decisão dos chefes do povo.
a. O que havia na Terra que motivou os chefes a tomarem essa decisão?
b. O que essa motivação indica sobre os costumes do povo Kayapó?
6. Releia os parágrafos 13 a 15.
a. Mitos são narrativas cheias de simbologia, isto é, apresentam componentes cujos sentidos dialogam com elementos exteriores ao texto por uma relação de semelhança. No trecho destacado, é narrada a produção de uma corda. De que modo ela é produzida?
b. O que essa produção pode simbolizar em relação à vida em sociedade entre os antigos Kayapó? Justifique.
7. Na narrativa, é citada a classe dos Mebenget. Com base na leitura desse mito, qual o papel dessa classe na sociedade Kayapó? Justifique sua resposta com elementos do texto.
8. Em relação as características da narração de mitos e com base na leitura do texto, responda:
a. Qual é o tipo de narrador do texto? Justifique sua resposta citando ao menos uma passagem do texto.
b. Que efeito de sentido o emprego desse tipo de narrador produz no texto?
9. O tempo em que se passa uma narrativa é um de seus principais elementos, pois, entre outras funções, permite situar o leitor na história contada.
a. É possível precisar a época em que se passa a narrativa contada no mito Kayapó? Justifique com um trecho do texto.
b. Que efeito de sentido causa essa ambientação temporal no texto?
10. Quais acontecimentos narrados no mito não poderiam acontecer no mundo real? Explique sua resposta destacando, pelo menos, três ações e aproveite para relacioná-las com a função delas na história contada.
11. Como você resumiria esse mito? Reescreva essa história com suas palavras. Lembre-se de organizar as ações apresentadas, demonstrando o que ocorre em cada parte do mito.
12. No ambiente em que viviam os primeiros Kayapó, havia macaxeira e mandioca. Os termos se referem a diferentes espécies de uma planta cuja raiz é um importante ingrediente da culinária indígena. Como essa raiz é chamada onde você mora? Aproveite para fazer uma breve pesquisa e responda:
a. Em que regiões brasileiras o termo macaxeira usualmente é empregado?
b. E o termo mandioca?
c. Cite outro nome usado no Brasil para se referir a esse mesmo ingrediente.
13. Embora pertencentes a culturas de raízes muito distintas, alguns mitos podem apresentar semelhanças entre si. Leia a seguir o trecho de um mito do povo africano iorubá:
Antes de haver vida na terra, toda a vida estava no céu. Obatalá era o orixá descontente, pois, além do céu, só havia água e névoa. Então, Olorum, o deus supremo, o enviou para dar início à criação do Universo.
Antes de partir, ele foi se encontrar com Orunmila, o orixá que tinha poderes de prever o futuro, e perguntou a ele o que precisaria para criar um lugar onde existisse raiz e sangue.
— Você vai precisar de uma longa corrente e areia, que deve colocar dentro de uma concha. Não se esqueça de levar sementes de palmeira e uma galinha branca — disse Orunmila.
Depois de tudo pronto, Obatalá desceu e desceu. Ele atravessou névoas e rodamoinhos até alcançar o final da corrente. Então retirou a concha da sacola e despejou toda a areia, que, ao tocar a água, transformou-se em terra firme.
OBEID, César. Quando tudo começou: mitos da criação universal. São Paulo: Panda Books, 2015. p. 40.
a. Que semelhanças há entre esse mito e o Kayapó? Justifique.
b. E o que há de diferente? Justifique.

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